>Jornalismo que virou lenda

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Jávier Godinho – DM Revista*
Há 50 anos, na noite de hoje, acontecia um massacre estudantil na Praça do Bandeirante, motivador do surgimento do semanário Cinco de Março, do jornalista Batista Custódio, que circulou até 1980, quando foi sucedido pelo Diário da Manhã, em 12 de março daquele ano. Já nos dias seguintes, Batista Custódio e seu primo Waldemar Peres de Faria, ambos alunos de agrimensura da Escola Técnica Federal de Goiás, onde cuidavam do jornalzinho Luneta, do Centro Acadêmico, se movimentavam buscando o lançamento do Cinco de Março, em protesto contra aquele ato de violência oficial, que obtivera enorme repercussão na imprensa de todo o País. Com a desistência de Waldemar, a Batista se juntaria Telmo de Faria e, nos anos seguintes, o Cinco de Março, já então com a participação de Consuelo Nasser, se transformaria no semanário praticamente inesquecível.Foram chegando talentos inconformados com todas as formas de injustiças: Waldomiro Santos, Carlos Alberto Santa Cruz, Antônio José de Moura, Carmo Bernardes, Geraldo Vale, Anatole Ramos, Sebastião Povoa, Antônio Gomes e tantos outros jornalistas, escritores, poetas e artistas que formavam a nata da cultura goiana. Como os admiramos, como sentimos saudades de todos eles! Embora lá fora fosse a noite negra da ditadura, lá dentro respirava-se, a longos haustos, a atmosfera pura da liberdade.Na oficina, no térreo, a estridente Marinoni, do começo do século 20, que antes fizera o Jornal de Notícias de Alfredo Nasser – a voz vibrante das oposições goianas –, imprimindo duas páginas de cada vez, e uma linotipo que funcionava canibalescamente, com peças transplantadas de outras duas, transformadas em carcaças. Umas poucas caixas de tipos obsoletos, a mesa metálica, onde se paginava, com as pernas bambas; quatro ou cinco cadeiras sujas de graxa e nada mais. À entrada, a saleta da gerência, com divisórias de eucatex. Em cima, um jirau de madeira a que chamávamos redação, com mesas, cadeiras e armários caindo aos pedaços e quatro ou cinco máquinas de escrever, do tempo da onça. O Cinco de Março, contudo, virou lenda e, em 2004, inclusive, foi homenageado pela Universidade Católica de Goiás, com o que sobrou de sua coleção, semidestruída no regime militar, microfilmada e integrando o acervo do Instituto de Pesquisa e Estudos Históricos do Brasil Central. O acontecimento foi prestigiado pelo governador, prefeito de Goiânia e destacadas personalidades da vida pública do Estado, que relembraram passagens de destemor do jornal nos árduos anos do autoritarismo.O Cinco de Março trouxe em página interna: “Na Polícia Militar do Estado é assim: corruptos graduados prendem inocentes e subalternos e ficam ilesos.” O texto se referia a uma carta-denúncia, datada de 10/6/64, enviada por alguém da própria PM, cuja identidade, conforme lhe garantia a lei de imprensa, o jornal jamais revelou, arcando com todas as consequências. Ao invés da apuração dos fatos, veio a resposta arrasadora, bem ao estilo policialesco daquele tempo. Pouco depois do Cinco de Março circular, fardados e ocupando dois jipes da instituição, portando metralhadoras e revólveres da corporação, visivelmente embriagados, oficiais da PM invadiram a sede do jornal, na Avenida Goiás. Lá encontraram apenas dois humildes funcionários da oficina, sujos de tinta e inocentes das maldades do mundo, fazendo a limpeza. Os invasores esbravejaram que queriam matar o diretor, Batista Custódio, e o redator-chefe. Não os encontrando, quebraram tudo. À noite, o governador dava entrevista na televisão, chamando o semanário de “comuno-chantagista”.
*A matéria completa, de autoria de Jávier Godinho, você vê na página do Diário da Manhã.
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